31.7.06

...Pezinhos de bailarina...

As sapatilhas gastas por fora de tanto dançar. Ainda se via um leve avermelhado na parte de dentro. Agora puxava-se um castanho sangue por causa da idade...Aquelas sapatilhas que haviam sido a sua vida e alma durante tanto tempo. Queria calçá-las outra vez. Queria senti-las novamente nos seus pés, ansiosos, para rodopiar outra vez o seu peso de pluma. Ainda mal pesava alguma coisa... Mas os seus reflexos não eram os mesmos, pelo que se negou usar as sapatilhas novamente com medo de perder o equilíbrio. Aquele de gato vadio que a mantinha sempre de pé, com a graciosidade de um cisne.
Olhou as suas mãos. As rugas não as tornavam menos belas... e os tremelicares tinham ainda em si uma certa dose de graça. Ainda se lembrava da sua primeira queda em palco. Partiu a mão direita nessa peça. Fora "As Luzes do Norte". Quando rodopiou e viu algo na sua frente, tão inesperado, que não pode deixar de cair. E caiu. Sobre a sua preciosa mão caiu. Mas levantou-se de imediato. "O espectáculo tem de continuar". E rodopiava e pulava como o vento , de mão imóvel encostada ao peito.
Riu-se. Lembrou-se daquele rapaz... o Julian. Que dançava com ela os sessenta e oito movimentos de Grascal. Apoiou-se no braço da sua poltrona e rodopiou muito lentamente...O mais rápido que lhe permitiam os músculos já usados...saturados... E sorriu novamente. Olhando os seus pezinhos de bailarina....

30.7.06

Espinhos e torturas.

Este espinho que se funde. Prendi-me a ti e aos teus maus hábitos. Agora não me desprendo deste espinho que me perfura.
É ridiculo, sei bem. Esta falta que me fazes . Que me doí porque não sei de ti nem do teu. Que me preocupa. Que me pesa. Este espinho que me dói na carne e alma.
Olho para mim de fora e vejo-me. Patética. Enamorada. Como me deixei chegar a este estado. Havia prometido que nunca mais ia amar ninguém. Só nos confundem e enjoam. Fazem-nos pensar de mais e perder peso.
Mas é tão forte, amor, o que me puxa para ti... quase tão forte como o k me afasta de ti, agora. Então pergunto-me se terei de ti alguma ajuda, para me manter perto e quente. Segura-me. Não me deixes cair mais. Já caí de mais. Não me tortures mais.

24.7.06

Piroseiras.

Naquela tarde, no café, era evidente que o bolo de chocolate com amêndoa não seria a única sobremesa que iriam comer. O copo de vinho branco e os 30 graus na esplanada foram suficientes para que ela se apercebesse que ja haviam esperado tempo de mais.
Pegou lhe na mão com o seu sorriso mais maroto, não descuidando os traços de cara que lhe diziam "adoro-te" com cada sarda..ruga..gesto.
Pagaram a conta com a mais vermelha das caras, depois do empregado lhes ter apanhado a fazer algo debaixo da mesa que não sei bem explicar.. Saíram pelo lado direito que ia dar á promenade e ao parque de estacionamento, onde tinham parado o seu Beattle creme descapotável. A meio do caminho o Roberto encontrou uma flor lilás no chão. Tinha ar de já estar ali há um bocado...mas continuava perfeita. Pô-la atrás da orelha da Inês e afastou-lhe uma madeixa de cabelo dos olhos. "Ainda estou com fome". Ambos riram.

Sempre achei imensa graça ás piroseiras que possam saltar da boca dos enamorados nestas alturas! O mais rídiculo dos absurdos torna-se absolutamente adorável aos olhos de quem ama. "Ainda estou com fome"??!!...

Apertaram as mãos um do outro inspirando e olhando á sua volta, sorrindo para si.

22.7.06

O meu pseudo-conto-de-fadas

Estás tão perto que te sinto.
Sinto o teu suave respirar na minha pele... o teu suspiro que me afasta da cara um caracol rebelde, no caminho entre os teus olhos.. e os meus.
E mesmo não estando aqui, consigo ouvir a tua voz..que me faz tão leve e pacífica por dentro..quando me cantas que me gostas. E cantas com os olhos. Consigo vê-los.. Daquele castanho profundo, que se tornou claro, quando decidi olhar para além do que, comodamente, via.
Foi a olhar para ti que descobri a "absência". Só um relance.. um momento em que se cruzam os meus olhos com os teus, uma viagem a uma dimensão paralela qualquer.. profunda.. onde só existes tu e eu, do meu e do teu, para mim e para ti. Estou segura quando me olhas e eu a ti. Estou forte porque és..e subsisto por ti.
E é aquele toque na minha face, de algodão carinhoso.. Purificas-me.. Renovas-me.. Alegras-me. E estou feliz. Sim, porque me fizeste. E adoro quando me fazes. Contigo ou sem ti, fazes-me tua e para ti. Constróis-me, sem querer, num castelinho cor de rosa, onde me fazes princesa dos teus pensamentos e sonhos.
Se fosse uma princesa seria a Rapunzel. Não por estar presa numa torre até que um príncipe me salvasse.. mas por esse príncipe me ter encontrado tão maravilhada no meu pequeno mundo, que me permitiria estar no cimo daquela torre, no topo do mundo, sempre que quisesse.

18.7.06

Mastigas um palavreado qualquer




Mastigas um palavreado qualquer que não entendo.. Diluis o vocabulário em pedaços de lixo desprezáveis que me enjoam interiormente. São detritos de alma que se espelham, por fora. Defeitos espirituais que te estragam. Mutilam.